Introdução

Em 1953, Edmund Hillary e Tenzing Norgay foram as primeiras pessoas que conseguiram chegar ao pico do Monte Everest, o mais alto pico da Terra. Agora seus filhos estão alertando o mundo sobre o dano que o aquecimento global está causando à montanha, uma das mais espetaculares maravilhas naturais do mundo. Peter Hillary e Jamling Tenzing, em uma entrevista para o jornal britânico The Independent, lamentaram que o aquecimento global esteja modificando radicalmente a aparência, a ecologia e o clima do Monte Everest e da área ao redor do Tibete. Eles alertam que a falta de ação pode acarretar um desastre ambiental.

O Monte Everest ainda apresenta paisagens espetaculares e o maior desafio de escalada do mundo.
Imagem cedida pelo fotógrafo: Jörg Jahn | Agência: Dreamstime.com
O Monte Everest ainda apresenta paisagens espetaculares e o maior desafio de escalada do mundo, mas o aquecimento global e a proliferação de lagos glaciais instáveis podem alterar radicalmente o meio ambiente local

Peter Hillary disse que o campo base do Everest, usado como ponto de apoio para expedições, diminuiu de uma altura de 5.320 metros, quando seu pai escalou o Monte, para 5.280 metros - e continua diminuindo mais a cada ano. O Hillary mais jovem, que escalou o Everest duas vezes, também alertou sobre os efeitos do rompimento dos lagos glaciais. Os lagos glaciais que ficam muito cheios de água podem quebrar suas barragens naturais, que são feitas de gelo, e liberar uma grande corrente de água. Recentemente escrevemos sobre um lago no Chile que desapareceu por causa do mesmo efeito.

No caso do Monte Everest e da área ao redor dele, milhares de pessoas podem estar em risco. Quarenta mil sherpas vivem na base da montanha. Já existem 9 mil lagos glaciais no Himalaia e 200 deles enfrentam possíveis enchentes-relâmpago de origem glacial. Uma enchente semelhante em 1985 criou uma torrente com 10 milhões de metros cúbicos de água. A maior parte da vila, inclusive a estação de energia elétrica local, foi devastada e algumas pessoas e entulhos acabaram a 88 km de distância. Agora existem alguns lagos 20 vezes maiores que aquele que arrebentou em 1985. Quando falava ao The Independent, Peter Hillary comparou os efeitos de uma enchente-relâmpago de origem glacial com os de uma bomba atômica.

Se os padrões atuais continuarem, a maioria das geleiras (em inglês) que cobrem o Himalaia podem derreter dentro dos próximos 50 anos e 80% delas terão desaparecido em 30 anos. Algumas dessas geleiras têm quase 5 quilômetros de extensão. Então, o Monte Everest viraria um pico enorme basicamente de pedra exposta, com poucas áreas de gelo. A geleira usada como primeira base por Hillary e Norgay diminuiu aproximadamente 5 quilômetros em 20 anos, enquanto outras desapareceram completamente. Em geral, as geleiras na área recuaram 74 metros em 2006, e mais de 42 metros por ano entre 1961 e 2001. Os efeitos já estão evidentes: os alpinistas são alertados para tomarem cuidado com os deslizamentos de terra e avalanches causados pelo grande derretimento da neve.

Além dos efeitos na área próxima, as geleiras do Himalaia têm importância mundial. Essas geleiras contêm 40% da água doce do mundo, abastecem nove grandes rios e fornecem um sexto da água potável do mundo. As variações no abastecimento local de água causaram desertificação em algumas áreas, o que dificulta que os fazendeiros irriguem seus cultivos. Grandes rios apareceram em algumas áreas onde não existiam antes e surgiram à custa de outras correntes de água.

As declarações sobre o aquecimento global de Hillary e Norgay são apoiadas por um estudo climático realizado por um grupo de cientistas internacionais em parceria com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da França. O estudo, publicado no início de 2007, confirmou que o aquecimento global está afetando adversamente o Monte Everest. Além disso, muitos tibetanos, sherpas, guias e visitantes freqüentes da área contam histórias de geleiras e gelo, como as florestas cheias de gelo, grandes colunas de gelo formadas pelas geleiras, desaparecendo ou recuando para altitudes mais altas.

O aquecimento global não é o único perigo que ameça o Monte Everest. Na próxima página, vamos ver algumas das outras ameaças que estão causando impacto na região.­