Os céticos da influência humana

Uma pesquisa científica publicada em 2003 nos Estados Unidos pela revista Science discutia as análises de três amostras do núcleo gelado da Antártida. O gelo tinha 240 mil anos de idade, e provinha do terceiro Período de Terminação, uma alteração climática que marca o fim de cada era do gelo. As constatações demonstravam que as concentrações de dióxido de carbono começaram a subir entre 600 e 1.000 anos antes que as temperaturas o fizessem, e antes que as geleiras (em inglês) antárticas começassem a derreter. Os autores do estudo sugeriam que o dióxido de carbono talvez não fosse a causa do aquecimento global, mas que tenha contribuído para o processo: a elevação nas temperaturas libera dióxido de carbono aprisionado nas geleiras e em outros locais, causando elevação ainda maior da temperatura mundial.

Antarctic ice core sample
Vin Morgan/AFP/Getty Images
Amostras do núcleo de gelo, como as recolhidas na Antártida em 1993, são usadas para sustentar e negar teorias sobre as alterações climáticas

O estudo demonstra que as elevações na presença de dióxido de carbono podem provocar elevações de temperatura, e não o oposto. Além disso, as amostras de gelo sugerem que o processo é natural. Essa observação é apenas um dos fatores que, aos olhos dos céticos quanto ao
aquecimento global antropogênico, livra os seres humanos dearesponsabilidade pelo aquecimento global. Ainda que aceitem a conclusão de que a Terra está sofrendo algum aquecimento, os céticos quanto ao aquecimento global antropogênico acreditam que a ciência esteja atribuindo a culpa aos seres humanos, sem dispor de provas científicas que sustentem essa hipótese.

Os céticos quanto às alterações climáticas antropogênicas alegam que os relatórios compilados pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas são resultado de negociações diplomáticas, e não de ciência descomprometida. Por exemplo, o representante de um país produtor de petróleo pode objetar à inclusão em um relatório de uma análise que critique de forma especialmente severa o uso de combustíveis fósseis. Se as constatações científicas não estão todas presentes nos relatórios divulgados pelo IPCC, acusam os céticos, o que mais pode estar sendo negociado?

Por exemplo, em 2001 o IPCC usou em seu Terceiro Relatório de Avaliação um gráfico apelidado de "bastão de hóquei", produzido pelo climatologista Michael Mann. O gráfico demonstra claramente os efeitos da atividade humana sobre as alterações climáticas, com um pico que surge na era do início da Revolução Industrial, quando as emissões de dióxido de carbono começaram a se elevar seriamente. O gráfico é uma dramática representação da interferência humana na natureza, e parece ser a prova irrefutável de alterações antropogênicas no clima.

Mas céticos que investigaram os métodos de Mann acreditam que ele tenha usado alguns dados incorretamente, especificamente dados de três anéis que indicam resposta ao dióxido de carbono e não à temperatura, para fazer com que seu gráfico demonstrasse os dados que ele desejava. Mann defende sua metodologia de maneira veemente.

Não importa a quem caiba a culpa, se os céticos quanto às alterações climáticas antropogênicas acreditam em aquecimento global, onde está a dificuldade? Leia mais para descobrir o que está em jogo no debate sobre as alterações climáticas.