Atenuação e adaptação

Em seu Quarto Relatório de Avaliação (IR4), o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas alerta sobre o futuro sombrio que a Terra enfrentará caso o aquecimento global se mantenha no ritmo previsto. Até 70% das espécies existentes podem ser extintas, caso as temperaturas subam mais de três graus centígrados ao ano. Milhões de pessoas também poderiam morrer, vítimas de inundações, secas, nevascas e outros padrões de clima excêntricos. Terras que hoje são cultiváveis podem se tornar desertos áridos, e recursos como a água vão se tornar escassos.

scarce water in somalia
Thomas Mukoya/AFP/Getty Images
Os recursos hídricos já são escassos em certas regiões (como a Somália, acima), e o IPCC alerta que, devido ao aquecimento global, esses recursos podem diminuir ainda mais

Para combater essas conseqüências desastrosas, o IPCC aconselha as pessoas a adotarem uma estratégia dupla quanto ao aquecimento global: atenuação e adaptação. Em lugar de servir como um fator de união - uma plataforma que promova a integração daqueles que acreditam nas alterações climáticas -, essa abordagem criou uma cisão entre diferentes facções de ativistas do clima.

A atenuação pressupõe que as pessoas possam ter impacto na reversão das alterações climáticas. Também implica que a atividade humana seja ao menos parcialmente responsável pelo aquecimento global. Os céticos quanto às alterações climáticas antropogênicas consideram que essa alegação não procede, e optam em lugar disso por apoiar medidas de adaptação.

O objetivo dos esforços de adaptação é ajudar a humanidade a prosperar como espécie sob as condições futuras de alteração climática. Eles citam a transferência de povoações localizados em áreas que se tornarão áridas ou serão submersas ao longo dos próximos 100 anos. Ou o encorajamento da reutilização de água cinzenta. Ou estudar técnicas agrícolas para uso em regiões montanhosas, que receberão boa parte das precipitações previstas em 2100. Ou dedicar atenção à doenças que se desenvolvem em climas quentes, como a malária.

A atenuação depende de regulamentação. Entre as medidas de atenuação propostas pelo IPCC temos, antes e além de tudo, uma redução nas emissões de dióxido de carbono. Os céticos alegam que reduções impostas pelos governos poderiam prejudicar a economia, forçando os países em desenvolvimento a utilizar alternativas dispendiosas aos combustíveis fósseis para manter suas indústrias florescentes em funcionamento. Caso seja imposta uma regulamentação e os esforços de atenuação se provarem insuficientes, países como esses não vão dispor dos recursos financeiros necessários para financiar procedimentos de adaptação, nas áreas em que estes mais serão necessários.

Os céticos criticam, igualmente, os efeitos que os biocombustíveis teriam sobre o suprimento mundial de comida. Terras aráveis são um recurso precioso em todo o mundo, e se os agricultores optarem por cultivar gramíneas para uso na produção de etanol, os suprimentos de alimentos podem se reduzir, em função da alta de preços. E as pessoas de países em desenvolvimento cuja dieta é baseada em grãos não seriam as únicas a sofrer. O gado requer grãos, e uma alta nos preços dos grãos também causaria redução na produção de carne, o que afetaria também os países ricos.

Além disso, o gado reque água - cerca de mil vezes mais por tonelada do que é necessário para produzir uma tonelada de grãos. Assim, se as futuras alterações climáticas reduzirem o suprimento mundial de água, as pessoas não terão gado, de qualquer maneira. Para não mencionar os inúmeros outros problemas que surgiriam com o aquecimento global, se o IPCC tiver razão.

E chegamos ao motivo para a urgência - e a paixão - que movem ambos os lados no debate sobre as alterações climáticas. A inação acarreta risco de futuras catástrofes, mas agir apressadamente pode também provocar uma calamidade.

Para mais informações sobre a Terra, economia, clima e assuntos relacionados, vá à próxima página.