A grilagem e a violência no campo
Os números são alarmantes.
Em 2006, segundo a
Comissão Pastoral da Terra (CPT),
652 mil pessoas envolveram-se em 1.414 conflitos agrários, com o saldo de 30 mortes.
Passa ano entra ano e a CPT divulga números como esses. E a violência, apesar de a Amazônia e principalmente do Pará serem alguns dos campeões, está em todo o país. Na região Sul, no interior paulista, nos Estados banhados pelo rio
São Francisco.
Os conflitos agrários não são ocasionados somente por grileiros ou por questões com terras públicas, mas os personagens se misturam. Há posseiros, simples invasores de terra para retirada de madeira, garimpeiros, e sem-terra organizados de um lado. Grileiros, grandes proprietários, mineradoras de perfis diferentes, representantes políticos locais e fazendas improdutivas do outro. No meio disso tudo, reservas indígenas, unidades de conservação, assentamentos. Com tanta gente e interesses divergentes, o pavio fica curto.
Há violência traz ainda pessoas completamente à margem da sociedade como pistoleiros de encomenda, policiais corruptos ou a mando de fazendeiros. Dois casos emblemáticos da violência do campo envolvem personagens da Amazônia. São eles o seringueiro e líder sindical Chico Mendes e a missionária católica Dorothy Stang. Nos dois casos, eram mortes anunciadas.
Chico Mendes Nascido seringueiro, Chico Mendes foi líder sindical durante anos. Participou ativamente da mobilização pelo direito às áreas de seringais no Acre. Foi fundador do
Conselho Nacional dos Seringalistas. Sempre ameaçado, sua situação piorou depois da desapropriação do seringal Cachoeira, que faria parte da primeira área comunitária de exploração de recursos naturais na região.
Os supostos proprietários
Darly e Darcy Alves da Silva (pai e filho) começaram a ameaça-lo. Enquanto isso, Chico rodava o Brasil e o mundo, lutando pela criação da reserva e denunciados as ameaças que sofria. Mesmo, recebendo alguns importantes apoios, o seringalista foi morto , no dia
22 de dezembro de 1988, Chico Mendes, então com 44 anos. Os tiros foram dados na porta de sua casa em Xapuri (AC). Dois policiais militares, que teriam que fazer sua proteção, fugiram, depois dos disparos feitos por um dos dois fazendeiros. Darcy e Darly foram condenados a 19 anos de prisão cada um em dezembro de 1999. Ambos foram presos, Darly chegou a fugir, depois foi capturado e ganhou a liberdade condicional em 2004 assim como seu filho. Darly acabou sendo preso, na mesma Xapuri, em 2006 por apresentar documentos falsos para conseguir um empréstimo no Banco da Amazônia.
Hoje, a reserva extrativista Chico Mendes, a primeira do país, é o legado deixado pelo seringalista.
Dorothy StangA irmã norte-americana Dorothy Anne Stang, da
Congregação Irmãs de Nossa Senhora do Namur, vivia no Brasil desde 1996. Nos anos 70, chegou na floresta amazônica, onde começou o trabalho de combate à grilagem e melhoria de vida dos mais pobres da região. Era constantemente ameaçada, mas dizia que não se preocupava. Em fevereiro de 2005, foi baleada por um pistoleiro em Anapu (PA), onde lutava pela criação de uma reserva de
desenvolvimento sustentável.
Entre os acusados pela sua morte, está
Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, acusado de ser o mandante. Até fevereiro de 2008, ele aguardava o julgamento em liberdade, graças aos recursos de seus advogados.
Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, seria outro mandante. Condenado inicialmente a 30 anos de reclusão, estava preso em fevereiro de 2008, mas aguardava um novo julgamento.
Amair Feijoli da Cunha, o Tato, é acusado de intermediar a negociação com os pistoleiros. Em abril de 2006, foi condenado a 18 anos de prisão. Até fevereiro de 2008, cumpria a pena.
Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, seria um dos pistoleiros contratados. Em dezembro de 2006, foi preso e continuava detido em fevereiro de 2008, assim, como o outro pistoleiro
Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, que seria autor dos disparos. Por isso, foi condenado a mais tempo: 27 anos de prisão.
Já a unidade de desenvolvimento sustentável que Dorothy Stang ajudou a criar em Anapu funciona, mas tem sido ameaçada por outros fazendeiros, além de sofrer algumas problemas com dissidências internas.