No que consiste o manejo florestal

Antes de apresentar as técnicas do bom manejo florestal, faremos uma rápida descrição da maneira como é feita a chamada exploração convencional. A exploração convencional se destaca por não conter nenhum tipo de planejamento prévio à extração de madeira na floresta, aumentando danos à mesma e desperdícios durante a extração. Neste tipo de exploração, infelizmente ainda predominante da Amazônia (uma estimativa de 2004 registra que 95% da produção de madeira da região foi gerada pela exploração convencional e desmatamento), após a construção das estradas principais e secundárias dentro da floresta, as árvores são localizadas por motosserristas e cortadas, sem nenhuma preocupação com a direção em que as mesmas irão cair – seja dentro de igarapés, cujas margens são consideradas faixas de preservação permanente, ou sobre outras árvores. Como tais profissionais comumente são remunerados por sua produtividade, não há uma preocupação em cortar as árvores em um ponto mais próximo ao solo ou aproveitar o máximo possível do fuste (porção do tronco que vai da base à primeira bifurcação) da árvore, evitando desperdícios. Os motosserristas costumam cortar todas as árvores comerciais existentes e, desta forma, tombam até mesmo árvores ocas, que são abandonadas na floresta. Nenhum mapa para auxiliar a encontrar as árvores cortadas na floresta é utilizado e, desta forma, a comunicação do local onde as mesmas foram tombadas ao tratorista que irá realizar o arraste das toras é deficiente ou mesmo inexistente. Os tratoristas entram nas florestas, algumas vezes com equipamentos inadequados, como tratores de esteiras (equipamentos usados para construção de estradas, que provocam grandes danos ao solo, à vegetação rasteira e árvores durante o arraste) e, já que foram mal comunicados sobre o local de queda das árvores, fazem um caminho desnecessariamente longo até as árvores, e ocasionalmente não as encontram. As toras são então arrastadas até os chamados pátios de exploração, que são construídos arbitrariamente, dependendo da necessidade de armazenamento de toras. Também devido à falta de planejamento, estes pátios são comumente maiores do que precisariam ser. O resultado é um excesso de danos e desperdícios à floresta, que demorará décadas (eventualmente séculos) para se recuperar. Além disso, comumente, uma área explorada de forma convencional será novamente explorada daqui a alguns anos, assim que novas espécies de madeira passarem a ter um valor significativo no mercado.

A Exploração de Impacto Reduzido (EIR)

A tabela abaixo mostra uma escala dos aprimoramentos possíveis na exploração florestal que podem ser feitos entre a exploração convencional e o manejo florestal de alta qualidade técnica. Aprimoramentos podem ser aqui definidos como a diminuição dos danos e impactos à floresta, e a melhoria da sustentabilidade econômica e social das práticas utilizadas. Um primeiro passo de aprimoramento a partir da exploração convencional, sob esta óptica, é a exploração de impacto reduzido (EIR).


Comparada à exploração convencional, a EIR se destaca pelo nível de planejamento prévio e também pela forma de execução da exploração que objetiva o reduzir os impactos sobre a floresta. Desta forma, podemos dividir as atividades da EIR em:

  • inventário florestal e atividades pré-exploratórias,
  • exploração florestal, e
  • atividades pós-exploratórias.


Inventário Florestal e Atividades Pré-exploratórias

Geralmente um ano antes da exploração, a área a ser manejada passa por um processo de avaliação do potencial madeireiro através de inventários amostrais. Essa informação prévia é importante para descobrir se o projeto é economicamente viável e também para definir o ciclo de corte, baseado na necessidade anual do empreendimento. Vale ressaltar que a legislação brasileira (Instrução Normativa IBAMA 05/2006) estabelece ciclos de corte diferenciados, dependendo do tipo de mecanização e do porte do empreendimento florestal. Por exemplo, um empreendimento empresarial de grande porte pode optar por ciclos que variam entre 25 e 35 anos. Já empreendimentos pequenos e de baixa intensidade, como pequenos produtores rurais e comunidades, podem ter ciclos de apenas 10 anos.

O que é o ciclo de corte

O ciclo de corte é uma das principais bases para um bom manejo. Com ele, é definico com que freqüência um certo talhão – ou uma parte da área florestal total – será submetido à exploração. Por exemplo, se o ciclo for de 25 anos, a área florestal é dividida em 25 partes de igual tamanho, e cada unidade é explorada ao longo de um ano. Evidentemente, o primeiro lote só será explorado pela segunda vez dentro de 25 anos, o que dá a floresta um tempo longo para se recuperar da exploração.


Em decorrência do ciclo de corte, as dimensões das unidades de produção anual (UPA) que fornecerão madeira para o empreendimento durante um ano (ou uma safra) são definidas. Nessa UPA será realizado um segundo inventário, desta vez um censo florestal (chamado também de Inventário 100%), que é um levantamento detalhado de todas as árvores comerciais dentro da área de manejo – tanto em idade de serem abatidas ou mais jovens, que seriam aproveitadas apenas em futuras colheitas. Este inventário inclui informações dendrométricas (altura, DAP e qualidade do fuste), as espécies e a localização das árvores dentro da floresta. Geralmente, durante a execução do inventário, os cipós que estão entrelaçados nas árvores a serem exploradas são cortados. Cipós ocorrem naturalmente e entrelaçam as copas de árvores. Sem o corte, feito pelo menos seis meses antes da exploração – para que os cipós apodreçam até o corte – o abate de árvores se torna em uma operação perigosa ao trabalhador e causadora de muitos impactos a outras.

O que é o DAP
DAP é sigla de diâmetro à altura do peito, sendo uma medida importante na área de mensuração florestal. É o diâmetro do tronco à altura padronizada de 1,3 m.

Com esse mapeamento, é possível identificar os indivíduos que serão explorados, as árvores matrizes – árvores que serão mantidas para gerar sementes e propagar espécies – e as que serão deixadas para um próximo ciclo. O mapeamento também ajuda a demarcar as árvores que estão dentro de Áreas de Proteção Permanente (APP) como bordas de igarapés e rios, declives e aclives acentuados, entre outras áreas previstas na legislação. O censo, finalmente, tem a função de auxiliar no microzoneamento da área de manejo, que é a etapa de planejamento da locação de estradas e infra-estrutura para a exploração, incluindo a identificação de igarapés (perenes ou não), aclives e declives que poderão dificultar o caminhamento das máquinas e equipamentos de arraste, veja um exemplo abaixo

Mapa do microzoneamento de uma área de manejo




O microzoneamento serve para planejar a implantação da infra-estrutura de exploração, como as estradas principais e secundárias que serão utilizadas para escoar madeira e equipamentos, os pátios de exploração, as pontes e bueiros, a área em que será implantado o acampamento, entre outros (Fonte: Instituto Floresta Tropical - IFT).

A última atividade pré-exploratória é a instalação de parcelas permanentes, que são porções amostrais da área de manejo – não mais do que 1% da área manejada – que servirão como indicadores de qualidade da exploração e serão posteriormente medidas para que o crescimento da floresta seja monitorado.

A exploração florestal

Nesta fase todo o investimento realizado em planejamento e em treinamento será utilizado na colheita florestal, através do abate das árvores, arraste das toras cortadas até pátios de estocagem, carregamento das toras em caminhões e transporte até o destino final da madeira.

Técnicas de abate de árvores foram aperfeiçoadas ao longo dos anos para as espécies amazônicas. Na EIR, os principais objetivos referentes ao corte são o controle da direção de queda – o que permite que as árvores sejam tombadas em uma direção que provoque o mínimo dano a outras árvores – e aproveitamento máximo do volume do fuste – cortando a árvores rente ao solo e evitando árvores ocadas, que possuem baixo aproveitamento. Para isso, foram desenvolvidas técnicas e equipamentos que primam pela segurança do motoserrista e equipe, além de técnicas específicas para espécies que racham com facilidade durante o abate como a maçaranduba (Manilkara huberi) e jarana (Lecythis lurida). Como pode ser observado na próxima tabela, a EIR apresenta uma desperdício muito menor do que a exploração convencional durante a derruba.

Volume de madeira desperdiçada – comparação entre exploração convencional e com impacto reduzido
(Fonte: T. Holmes e colaboradores, 2002)

Fator de desperdício no corte de árvores Convencional EIR
Toras não aproveitadas pela indústria 1,97 0,85
Desperdícios por rachaduras nas toras 0,87 0,31
Desperdício por corte alto 0,28 0,10
Árvores inutilizadas nos pátios de estocagem 1,97 0,60


Após o abate, as árvores são destopadas (as copas são cortadas) e as toras são arrastadas até pátios de estocagem. Os caminhos utilizados pelos equipamentos que fazem o arraste, chamadas de trilhas de arraste, são planejadas para otimizar a operação (menor distância, menor impacto ao solo e à floresta e menor custo de operação). Um grande diferencial da EIR em comparação à exploração convencional é que, na última, os operadores não sabem exatamente o local em que as árvores foram cortadas (uma vez que não foram usados mapas detalhados), passando várias vezes pelo mesmo local ou fazendo voltas desnecessárias dentro da floresta, aumentando os custos e os impactos provocados pelo arraste. Visto por cima, uma comparação visual da disposição das estradas, ramais de arraste e pátios de estocagem entre a exploração convencional e a EIR demonstra a superioridade da segunda em relação à quantidade de área da floresta perturbada pela exploração florestal . O uso de equipamentos especiais, como os tratores florestais skidder, também auxiliam a otimizar o arraste e diminuir o impacto da operação sobre o solo da floresta e os danos às árvores e vegetação remanescente.


Fonte: P. Amaral e colaboradores, 1998.


Skidder
Marco Lentini e Denys Pereira
Trator florestal skidder, que contém gancho de arraste, usado em exploração com manejo

Trator-esteira
Marco Lentini e Denys Pereira
Trator esteira que não é sugerido para o bom manejo

Trator adaptado
Marco Lentini e Denys Pereira
Trator agrícola adaptado para operações de arraste


A produtividade da EIR em relação à exploração convencional é notória. Em um estudo conduzido no leste do Pará em uma floresta densa no município de Paragominas (Pará), o pesquisador Tom Holmes e colaboradores encontraram que a produtividade média (medida em metros cúbicos por hora) de uma equipe de trabalho realizando arraste e operações de pátio de madeira em EIR era 41% superior à produtividade da exploração convencional. Entretanto, a produtividade da operação de abate, conforme esperado, era inferior, mas apenas em 9%.

Muitos empresários e profissionais do setor florestal não aderiram às técnicas de manejo florestal porque, intuitivamente, devido ao aumento das despesas com planejamento e treinamento de equipes, acreditam que o custo da madeira manejada é maior. Entretanto, isto não é verdadeiro. O mesmo estudo, por exemplo, mostra que a madeira produzida sob EIR pode ser até 30% mais barata do que a exploração convencional. As razões para este fato foram discutidas anteriormente: a EIR implica em menores desperdícios, maior otimização e menor tempo de máquinas trabalhando por unidade de volume de madeira do que a exploração convencional.

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Comparação de produtividade e custos das atividades
Dados coletados em sítio experimental no leste do Pará em 2002. (Fonte: Holmes e colaboradores, 2002).

Atividade Exploração convencional EIR
Produtividade (m³/h) Custo (US$/m³) Produtividade (m³/h) Custo (US$/m³)
Derruba e traçamento 20,46 0,49 18,65 0,62
Arraste 22,39 1,99 31,66 1,24
Operações de pátio 22,39 2,01­ 31,66 1,28
Total - 4,49 - 3,14
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Atividades Pós-Exploratórias

Após a exploração, as florestas continuam a ter seu crescimento e sua dinâmica de espécies monitorada através das parcelas permanentes, locadas durante o inventário 100%. Tais dados guiarão futuros ciclos de exploração e outras intervenções na floresta. Outras atividade pós-exploratórias, aplicadas em algumas florestas com manejo mais refinado, como as florestas certificadas, são os tratamentos silviculturais. Tais tratamentos incluem os cortes de liberação, no qual árvores não-comerciais são cortadas para que as espécies comerciais possam se desenvolver. Outro tipo de intervenção são os plantios de enriquecimento, em que mudas de espécies valiosas economicamente que possuem baixa ocorrência ou regeneração na floresta explorada são plantadas. Além destas possíveis intervenções, o manejador deverá proteger a área manejada contra invasões (caçadores, grileiros, etc.) que possam por em risco as árvores remanescentes ou provocar incêndios florestais.