Detalhando os parâmetros de poluição

Grande parte das poluições aquáticas tem causas ligadas a modificações de quantidades dos principais elementos fundamentais à vida dos rios lagos e oceanos . A matéria orgânica é um desses elementos, pois serve de alimento para peixes, fungos e bactérias decompositoras, causando crescimento de todas as populações; contudo seu excesso na água é consumido unicamente pelas bactérias, que se multiplicarão mais que os demais seres vivos. Podemos dizer que a matéria orgânica eutrofiza o meio aquático. Em grande número, esses microorganismos consumirão mais oxigênio no processo de digestão da matéria orgânica, conseqüentemente a quantidade de oxigênio, que é outro elemento fundamental à vida, diminui bruscamente, ocasionando a morte de peixes e outros seres que dependem de concentrações de oxigênio mais elevadas na água.

A introdução de matéria orgânica em demasia pode ocorrer por meio do esgoto doméstico, sendo a quantidade de esgoto inversamente proporcional à de oxigênio na água, porque além de provocar o excesso de consumo de oxigênio, o esgoto também torna a água mais turva e escura o que impede a passagem da luz, levando a inibição da fotossíntese das algas e de outros organismos fotossintetizadores, acentuando ainda mais a desoxidação da água.

A oxigenação das águas e dos oceanos promovida pelas algas e microorganismos fotossintetizantes é vital para o planeta, isso verifica-se tendo como base que a terra é coberta em 2/3 por superfície aquática.

Assim, de forma sucinta, podemos dizer que a introdução de esgoto na água aumenta a demanda bioquímica de oxigênio (DBO), ou seja, aumenta a necessidade de oxigênio a ser consumido e diminui a produção de oxigênio. Porém, o esgoto ou outras formas de matéria orgânica pode demorar a ser decompostos e não aumentar muito a DBO quando está na forma de resíduo sólido, tendendo a decantar no fundo lodoso dos corpos d´água.

Alguns fatores do meio físico podem aumentar a oxigenação da água: a sinuosidade, a grande declividade e as cachoeiras, que provocam turbulência e aeração na água, que absorve do ar mais oxigênio. A sustentabilidade do despejo de esgoto biodegradável deve ser proporcional à vazão de um rio, sendo proporcional também a quantidade de oxigênio diluído.

Poluição das águas
Crédito: Luís Indriunas

Ainda quanto à decomposição de matéria orgânica vale lembrar que algumas bactérias fazem sua decomposição utilizando oxigênio, outras não (bactérias aeróbias e anaeróbias), mas as que utilizam oxigênio estão em maior número no meio aquático devido a maior eficiência do seu processo de decomposição. Além disso, é importante lembrar que um composto orgânico biodegradável não é necessariamente o mesmo que um composto orgânico não tóxico aos peixes e outros organismos.

O processo de decomposição biológica é antes de tudo um processo de assimilação, sendo um composto introduzido em um corpo d´água biodegradável quando ele pode ser assimilado (“digerido”) pelo meio, ou não-biodegradável quando não puder ser assimilado.

A matéria orgânica, ou composto orgânico, é formada por cadeias de carbono e oxigênio que servem de alimento para os seres vivos, os quais, nesse processo de decomposição, executam uma das etapas do ciclo do carbono (outro ciclo material e energético fundamental para a vida).

Porém, muitos compostos orgânicos sintéticos produzidos pela indústria não servem de alimento para os seres vivos aquáticos e são resistentes à ação química da água e dos compostos nela dissolvidos. É o caso dos detergentes e plásticos, que só podem retornar como carbono ao seu ciclo material através da incineração. Atualmente muitos detergentes já tornaram-se biodegradáveis e a pesquisa de plásticos biodegradáveis e bactérias decompositoras destes avançou, mas a adoção dos mesmos pela indústria e para uso doméstico ainda tem muito para evoluir não só no Brasil como no resto do planeta.

Alguns compostos orgânicos sintéticos representam um especial risco de poluição para as águas superficiais e sub-superficiais, como os detergentes ABS (alquil benzeno sulfonatos) formados por rígidas ligações entre enxofre e carbono, inseticidas do tipo DDT e alguns pesticidas. Esses compostos são especialmente nocivos à vida aquática pois são tóxicos aos peixes, reagem com a água diminuindo sua oxigenação, prejudicam a vida de outros microorganismos, sendo prejudiciais também aos seres humanos que os ingerem.

Não assimiláveis pela natureza, quando infiltram pelo solo atingindo corpos d´água, ou despejados diretamente nos mesmos, esses compostos entram no ciclo das águas e não saem mais. Alguns sabões comuns também causam prejuízos como os citados, mas diferentemente dos demais compostos orgânicos sintéticos são biodegradáveis.

Poluição das águas
Crédito: Luís Indriunas

Não só as poluições propiciadas por excesso de alimentos, como o despejo das atividades fisiológicas humanas (a mais comum fonte de poluição das águas brasileiras e mundiais, geralmente proliferadora de contaminações microbiológicas), ou a poluição gerada por compostos não biodegradáveis (freqüente na sociedade industrial que os fabrica em massa), são poluições freqüentes nos corpos d´água. Outras poluições físicas, físico-químicas e químicas são muito comuns também.

Dentre as poluições físicas mais comuns, podemos citar a poluição por turbidez ocasionada por excesso de partículas em suspensão na água, como uma das mais freqüentes. Esse excesso de turbidez pode ser ocasionado por despejo de materiais na água ou por erosão do solo drenada pelos corpos d´água, tornando a água cheia de partículas pedregosas que podem asfixiar os peixes através da obstrução das suas brânquias.

Outra poluição de ordem física muito comum é a poluição por elevação de temperatura, que é normalmente ocasionada por despejo de água em elevadas temperaturas no rio. Quando a temperatura da água é elevada a temperaturas acima de 50 a 60 graus Celsius pode haver uma completa esterilização do ambiente, mas alterações de temperaturas mais discretas também geram mudanças físicas no meio. Temperaturas mais brandas podem produzir alterações da solubilidade de gases na água, característica que é inversamente proporcional à temperatura: em temperaturas mais elevadas a água comporta menor concentração de oxigênio e impossibilita a vida de peixes e larvas de insetos, que somente vivem em águas frias devido à alta concentração de oxigênio das mesmas.

Das poluições físico-químicas, a poluição por alteração de pH das águas (potencial hidrogênico das águas) é comumente gerada pelo despejo de ácidos ou álcalis industriais, que são utilizados para a lavagem de equipamentos. Quando esses despejos ocorrem a água fica demasiadamente ácida ou alcalina para a vida dos peixes, (lembrando que o valor 7 de pH exprime a neutralidade, o pH acima de 7 é alcalino e o pH abaixo de 7 exprime acidez).

Os principais elementos naturais que regulam o pH da água são os minerais dos sítios pelos quais correm os rios, a atividade respiratória dentro da água e o contato com os gases atmosféricos. As rochas carbonáticas são comumente fonte de calcário para os cursos d´água que por ela percorrem, dissolvendo esse mineral e tornando a água alcalina. Já a atividade respiratória dos seres vivos aquáticos e a dissolução do gás carbônico da atmosfera são as fontes de gás carbônico que, dissolvido na água, produz um ácido fraco, o ácido carbônico.

Sendo os carbonatos também alcalóides fracos, a água tende a ter um pH neutro, ao qual a maioria dos peixes está acostumada. A alteração dessa condição de neutralidade tende a ser nociva para os peixes e prejudicial aos seres vivos que dependem do meio aquático.

Outra poluição físico-química muito comum é a alteração do nível de salinidade das águas, normalmente gerada por despejos industriais e esgotos domésticos. Esse tipo de poluição pode ocorrer em água doce, salobra ou salina, matando peixes, musgos, algas e demais seres vivos aquáticos, pois esses seres vivem em um equilíbrio de pressão de osmose entre o próprio corpo e o meio aquático ao qual estão adaptados.

Essa relação osmótica (pressão osmótica) se dá através da relação da salinidade entre as células dos seres vivos aquáticos e o meio aquático, sendo que a água tende a se movimentar entre o meio aquático e os seres vivos passando do meio com menor salinidade para o com maior. Se pensarmos que o organismo dos seres vivos é um meio separado por membranas semipermeáveis do meio aquático, podemos concluir que os seres vivos aquáticos podem esvaziar até murchar ou encherem-se de água ao ponto de estourar.

Para que um peixe possa viver em ambientes de água doce, ele deve dispor de um sistema de evacuamento de água, pois o seu organismo é mais salino que o meio, já o peixe que vive em água salina dispõe de um mecanismo inverso, pois o seu organismo tem um nível de salinidade inferior ao do meio marinho. Por essas relações e mecanismos um peixe de água salina não vive em ambientes de água doce e vice e versa, salvo raras exceções.

Ainda há um último tipo de poluição físico-química muito comum que é causada por detergentes, prejudicando a vida de besouros d´água e de aves aquáticas. Esses e outros seres vivos dependem do efeito da tensão superficial sobre os líquidos para manter-se no ambiente aquático. Esse fenômeno caracteriza-se pela atração que as moléculas externas de um líquido sofrem através do contato com moléculas vizinhas, resultando na maior coesão das moléculas superficiais do líquido em relação as moléculas inferiores ou mais profundas.

É essa força de atração que é responsável pela forma das gotas d´água e pela forma das superfícies dos rios. Assim como a água, os outros líquidos também têm essa película, sendo em função dessa película que muitos seres vivos rastejam no leito dos corpos d´água ou bóiam na superfície dos mesmos.

Os besouros d´água constituem um caso muito especial de dependência da tensão superficial da água, pois necessitam da mesma para respirar, já que vivem dentro da água sem órgãos respiratórios aquáticos. Com essas limitações, os besouros têm que voltar a superfície para capturar ar com oxigênio que fica preso nos pelos junto ao seu ventre, onde estão seus órgãos respiratórios. Essa bolha de ar que se forma em meio aos pêlos e ao ventre do besouro só permanece em meio a água graças ao nível de coesão gerado pelo efeito de tensão superficial da água.

Muitas aves aquáticas, como os patos, também mantêm partículas aéreas em meio às penas e o ventre, mas utilizam esse ar para a locomoção. Essas aves têm um líquido oleoso no ventre que o torna impermeável, levando o ar preso entre o ventre e as penas a formar uma espécie de flutuador, que é também garantido pela tensão superficial da água.

O despejo de detergentes nos corpos d´água diminui o nível de coesão das moléculas de água, impedindo o modo de vida de animais que dependem da sua tensão superficial, dissolvendo também constituintes essenciais de células muito expostas à água, como as das brânquias de peixes e a dissolução da oleosidade dos ventres de animais aquáticos.

Por fim, é importante citar uma forma de poluição química que pode acontecer através do uso de agentes redutores,compostos químicos demandantes de oxigênio quando dissolvidos em água. Os compostos ferrosos são um exemplo desses compostos que geralmente são despejados nos corpos d´água pelas indústrias.