Como a indústria pode evitar a emissão de substâncias tóxicas de origem sintética

Para evitar a emissão de substâncias tóxicas, a indústria tem várias metodologias. São filtros específicos utilizados durante o processo produtivo e colocados em chaminés, tratamento de efluentes e armazenamento adequado do material, acompanhamento e análises periódicas de solo e águas superficiais e subterrâneas próximas as instalações. Para entender melhor, como pode ser feito o trabalho, é interessante lembrar da trágica historia da poluição ambiental na cidade de Cubatão, na Baixada Santista, em São Paulo.    

Cubatão

O processo de colonização de Cubatão ocorreu por volta do século 17, quando iniciou-se a construção da via Anchieta. A industrialização, já no século 20, trouxe muitos empregos e moradores para a região, porém, também houve muitos transtornos provocados por esse processo.          

Ao lado da poluição, a industrialização do município de Cubatão acarretou também um outro problema, tão grave quanto o primeiro: a miséria da maior parte de sua população. Não foi, entretanto, a população que vivia em Cubatão, antes da industrialização, que se tornou miserável. Ao contrário, essas pessoas foram as mais beneficiadas pela chegada das indústrias, através da valorização de seus imóveis (casas e terras), melhores empregos e aumento da demanda de seu comércio e serviços.

Assim, os miseráveis acabaram sendo os migrantes que vieram para o município, a partir dos anos 50, à procura de emprego e melhores condições de vida. Muitos desses migrantes realmente conseguiram o que procuravam, mas a grande maioria não. Ficaram excluídos e marginalizados dos benefícios da industrialização, restando para eles apenas a pobreza e as doenças provocadas pela poluição.

Em 1983, logo no início do governo Franco Montoro em São Paulo, detectou-se a existência de 320 fontes de poluição ambiental (ar, águas e do solo) em um universo de 23 indústrias instaladas no município, situado no início da subida da Serra do Mar, na Baixada Santista.

Essas fontes foram caracterizadas, de acordo com o tipo de indústria e divididas em grupos:
  • siderurgia, que incluiu as unidades de aciaria, sinterização, alto-forno, fundição, laminação, coqueria e as fontes estacionárias de queima de combustível;
  • fertilizantes, que incluiu operações de manuseio de rochas fosfáticas, ácidos, queima de combustível e geração de vários resíduos sólidos, granulados e gasosos;
  • minerais não-metálicos, que incluiu as unidades de cimento, gesso e concreto;
  • refino de petróleo, que incluiu as unidades de craqueamento; e
  • química e petroquímica, que incluiu as unidades de formol, resinas poliéster, cloro, soda e acido clorídrico, entre outras substâncias.

O grande número de doenças respiratórias provocadas pelos poluentes liberados aumentava cada vez mais. Mais de 1,5% da população eram deficientes físicos ou mentais. Um histórico bastante negativo na área da saúde ocorreu no período de 1981 a 1982, nasceram 1.868 crianças: 37 estavam mortas; outras cinco apresentavam um terrível quadro de desenvolvimento defeituoso do sistema nervoso; três não chegaram a formar um cérebro (anencefalia) e duas tinham um bloqueio na estrutura de células nervosas que liga o cérebro ao resto do corpo através da espinha dorsal (fechamento do tubo neural). Estes acontecimentos estavam ligados a forte liberação de substâncias tóxicas, na forma de gases, e, principalmente, pelo consumo de água e alimentos contaminados pelo mercúrio despejado em rios.   

Embora os estudos clínicos não fossem definitivos na época de seus acontecimentos, a anencefalia parecia ligada à poluição do ar, dos alimentos e das águas, pela concentração industrial da cidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os dez casos de malformação registrados em Cubatão no ano de 1981 representavam uma taxa 15 vezes maior que a média de qualquer outro município do mundo de mesmo porte. O Hospital Oswaldo Cruz, um dos dois grandes centros médicos da região, afirmava nesse mesmo ano ter registrado 41 casos de malformação nos últimos 2.000 partos realizados.

Segundo estudos realizados pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesb), em 1980, o pólo industrial de Cubatão estava emitindo cerca de 30 mil toneladas por mês de material poluentes atmosféricos (apenas no ar na forma de gases e particulados). Estes últimos são formados por microscópicas partículas que já não se pode dizer se são sólidos, líquidos ou gasosos. Estas partículas contaminavam depositando-se no solo, nos rios e no mangue. No total, havia 75 tipos de poluentes principais constantemente sendo emitidos pelas fábricas.

Há mais de vinte anos do início do Programa de Controle das Fontes Primárias de Poluição em Cubatão, a CETESB, iniciou a segunda fase, com o objetivo de reverter a situação das cinco fontes ainda pendentes da primeira fase e estabelecer o processo de melhoria continua no pólo petroquímico que, até o início da década de 1980, era conhecido como o "Vale da Morte" por causa da deterioração ambiental e os péssimos indicadores de qualidade de vida.

Embora ainda existam muitas pendências, o Programa de Controle da Poluição Ambiental de Cubatão impôs também exigências complementares para reduzir as emissões atmosféricas, da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), que resultou na adoção de novo equipamento de controle, como os filtros-manga, a partir de julho de 2003, e o compromisso de substituir todas as portas de seus fornos.